Religiosidade Cigana – Mito x Realidade

shei bari

Cigano é a palavra gadjé (não-cigana) para os rhomá, povo de origem oriental que em algum momento do século XI iniciou uma diáspora, espalhando-se pelo mundo. Alcançando a Europa no final de Idade Média, logo destacaram-se por suas notáveis diferenças em relação às populações européias. Tornaram-se conhecidos por sua origem misteriosa, seus hábitos incomuns (e muitas vezes condenáveis) e sua aura de magia e misticismo.

Mas o quê, de todos esses estereótipos, é realmente verdade e o que é apenas ficção?

Sabemos que, de início, se pensou a origem dos rhomá como o Egito, coisa que não é verdade, pois vieram no noroeste do subcontinente indiano. Sabemos que, de início, se pensava nos rhomá como sequestradores de crianças, coisa que também não é verdade, já que eles, muitas vezes, adotavam crianças gadjé rejeitadas pela própria sociedade em que nasceram. Por fim, o quesito religião e espiritualidade talvez seja um dos que mais abriga equívocos e interpretações erradas acerca deste povo de cultura milenar.

Os rhomá são um povo místico, não resta dúvida. Em suas vidas, um espaço importante costuma ser reservado para a fé e a religião. Paradoxal, portanto, pode parecer o fato de que um povo tão devoto, místico e cheio de superstições não tenha uma religião, um panteão de divindades e uma classe sacerdotal próprios. De fato, ao deixarem a Índia, os rhomá não levaram consigo nenhuma religião.

Ao contrário dos judeus, outro povo nômade, cuja origem é igualmente polêmica, a pátria dos assim chamados ciganos não é uma religião, mas uma língua – o romani. Neste caso, na opinião do ciganólogo, ativista e linguista brasileiro Nicolas Ramanush, não se trata de uma pátria, mas de uma mátria, pois estamos falando de uma língua mãe.

No que diz respeito à religião, desde sempre os rhomá, parecem ter se adaptado aos costumes do lugar em que chegavam e que escolhiam para viver, adotando a religião local, ainda que, algumas vezes, apenas superficialmente. Em muitos casos, empréstimos das religiões e do folclore dos povos com que conviveram foram incorporados nos costumes e na cultura romani, chegando até os dias de hoje. É o caso, por exemplo, das slavas (festas religiosas) e das pomanas (cerimônias fúnebres), que são claras influências da cultura eslava do norte e do leste europeu.

Com base nisso, discutiremos esse vivenciar especificamente romani de religiões não-romanis em várias localidades diferentes do globo, passando pelos banjara hindus, pelos hoharanê islâmicos, pelos kalderash e lovari ortodoxos, até chegar aos católicos calé e até mesmo ao movimento neopentecostal que cresce avassaladoramente nos dias de hoje. Por fim, elucidaremos as diferenças entre o “vivenciar religioso romani” e o culto à entidades ciganas, um culto não-cigano que cresce em popularidade a cada dia no Brasil.

A Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, mas, mais que isso, é um movimento cultural que nasceu do sincretismo religioso e étnico dos muitos povos que ajudaram a construir a identidade brasileira. Os rhomá, que chegaram aqui ainda nos tempos da Colônia, têm sido negligenciados pela historiografia tradicional, mas também fazem parte deste processo aglutinador de formação da identidade cultural do Brasil. Nada mais natural, portanto, que eles, assim como indígenas e africanos, estejam também presentes neste movimento, que se trata de uma ramificação ou dissidência da Umbanda, ainda que com algumas características – sobretudo de natureza estética – diferentes.

O problema começa quando este culto se confunde com religião, tradição e cultura romani na cabeça dos não-ciganos, dando margem a interpretações equivocadas, bem como a indivíduos mal-intencionados que se põem a vender bobagens pseudo religiosas como tradicional e secreta religiosidade romani. Ora, não se pode dizer romani algo que nunca foi praticado pelos rhomá ao longo de sua história.

Se bem orientado quanto aos aspectos étnicos e culturais, esse movimento de autêntico cunho religioso que cresce no Brasil pode vir a ajudar os rhomá em sua luta por direitos e visibilidade. Se mal orientado, de contrapartida, como infelizmente vem sendo, pode ocasionar prejuízos graves às lutas seculares da etnia, que vem sendo confundida com uma religião, quando, na verdade, jamais teve uma própria.