PALESTRA SOBRE IDENTIDADE RHOMÁ – I SEMINÁRIO DE CULTURA E IDENTIDADE ROMÁ

palestra - Volta Redonda

***O texto abaixo se refere à palestra ministrada por mim, Mikka Capella, no I Seminário de Cultura e Identidade Romá, que aconteceu no dia 5 de abril, antecipando as comemorações do International Romani Day de 2018, no Campus Aterrado da UFF, em Volta Redonda.

QUEM SÃO OS CIGANOS?

A definição do que seria uma identidade Romani é um problema de complexidade profunda, que toca a comunidade cigana e também os não-ciganos, mas que reverbera na comunidade com muito mais força, sobretudo no que tange às suas consequências. Todos pensam conhecer os ciganos, quando, na verdade, o que todos têm é uma ideia de quem os ciganos sejam. E essas ideias passam pelas mais diversas concepções:

  • Povo nômade;
  • Pessoas livres, sem regras, que vão aonde querem e fazem o que têm vontade;
  • Místicos que conhecem os segredos da magia e do futuro;
  • Pessoas que cultivam um estilo de vida meio hippie, cuja filosofia é o amor e o contato com a natureza;

Há também os estereótipos negativos, é claro:

  • Ladrões;
  • Estelionatários, golpistas;
  • Sequestradores de crianças;
  • Pessoas sem nenhum princípio moral, que margeiam a sociedade como parasitas e buscam sempre levar vantagem;

O fato é que a maior parte das pessoas não faz a menor ideia de quem realmente sejam os rhomá, e nem se importa. Aquilo simplesmente não toca a sua realidade. Ciganos são entes distantes, quase personagens de algum romance de época, e muita gente, de fato, acredita que nós não existimos mais. Quando se pensa em grupos ciganos, o que vem à mente dos indivíduos não-ciganos quase sempre é a fantasia, a ludicidade, e o imaginário popular nos pinta como personagens bidimensionais, não como pessoas dividindo o mesmo mundo cheio de problemas e desigualdades.

Tudo isso, meus caros, é sobre identidade. Perpassa a mesma questão que estamos colocando aqui: quem são os ciganos?

Um povo, para começo de conversa, é uma boa definição. O problema é que “povo”, no imaginário popular, não se refere necessariamente a uma comunidade tradicional grande, com história, língua e cultura própria. “Povo” pode ser, simplesmente, um grupo de pessoas reunidas em algum lugar. E, de fato, a sensação que nós temos é a de que a sociedade não-cigana, com a qual estamos sempre dividindo os mesmos espaços (por mais diferente que seja esta comunidade não-cigana, já que estamos espalhados pelo mundo todo), não nos reconhece e não nos compreende como um povo, uma etnia, com um ethos, em sua alteridade.

Coisa parecida acontece, talvez, aos judeus, com quem guardamos muitas semelhanças. Mas os judeus têm a religião, que, por acaso, tem escrituras sagradas que são conhecidas por quase todo o ocidente. Além disso, eles se encarregaram desde muito cedo de marcar presença na sociedade não-judia, como pensadores, médicos, economistas, enfim, cidadãos proeminentes na sociedade não-judia, e, deste modo, se incluíram na história não-judia.

Sempre fui do pensamento de que nós, rhomá, devíamos ter feito a mesma coisa, mas fomos no sentido oposto disso. Nos distanciamos da sociedade não-cigana o máximo que pudemos. Nossos ancestrais pareciam nutrir profunda aversão por tudo o que não fosse romani, ou melhor, por tudo o que fosse gadjé (não-cigano), já que judeus, por exemplo, não são tratados pela sociedade romani como gadjé.

Os judeus também possuem, hoje, um país. Quer dizer, sua identidade étnica está ligada a um lugar específico que a sociedade não-judia compreende como uma pátria. Para nós, rhomá, não existe algo como “pátria”. Nosso ethos não está ligado à terra. Nosso ethos está ligado à família, muito mais do que a qualquer outra coisa (mesmo a língua, ao contrário do que alguns estudiosos possam dizer), e é por isso que, para nós, o problema da identidade está resolvido e é muito simples, tanto que muitos rhomá não compreendem porque é tão difícil para os não-ciganos entenderem que cigano é quem nasce cigano.

O que é nascer cigano?

Nascer cigano é nascer no seio de uma família cigana. Para a maioria dos grupos, a legitimidade étnica é dada pelo pai. Ou seja, você será um cigano se seu pai era um cigano. Este é um traço comum a diversas culturas orientais. Algumas vezes, esse traço será motivo de controvérsia sobre determinados indivíduos (uma das ofensas preferidas entre ciganos é a acusação de que o outro não seria um cigano verdadeiro, ou então um mestiço, baseado no critério ofensivo de que seus parentes seriam falsos ciganos ou “kaliviris” – sujeitos impuros, mestiços). Mas, de maneira geral, quando o indivíduo nasce numa família cigana, é filho de pais ciganos e é criado segundo os costumes da sua família, ele é um indivíduo cigano. Assim se define a identidade romani.

Disso nós podemos concluir que ser um indivíduo cigano é ser o portador, o legítimo portador, do legado dos seus antepassados. Não basta ter pais ciganos, você precisa ser criado segundo os costumes e passá-los adiante para a sua própria descendência. Há um valor nas tradições, nos costumes, que transcende os próprios indivíduos; eles existem por si mesmos, é claro, mas existem, em primeiro lugar, para a manutenção de um ethos que importa mais do que eles próprios.

Este é outro traço comum a muitas culturas orientais. Há nisto tudo uma ideia de continuidade, de perenialidade, na qual o indivíduo não vem em primeiro lugar; seu principal objetivo na vida é manterem vivos os seus ancestrais por meio da responsabilidade sagrada de manter viva a sua cultura, o seu povo.

Compreendido isto, nós poderíamos encerrar esta fala aqui. Está definida o que é a identidade romani, tanto no passado quanto no presente e provavelmente o que ela continuará sendo no futuro. É uma matéria simples, na verdade, mas infelizmente não é assim que as coisas funcionam…

O Choque de Alteridade

Talvez pela falta dos signos básicos que, no seu entendimento caracterizam um povo, os não-ciganos parecem ter dificuldade de enxergar nos rhomá um povo autônomo, com história e costumes próprios. Não temos uma terra para chamar de nossa e na verdade sequer valorizamos o conceito de pátria; a coisa mais próxima de uma pátria para um indivíduo romani é sua própria família, como já dissemos. Também não temos uma religião, sacerdotes ou deuses; tudo o que há é uma espiritualidade forte, porém misteriosa, que deixa no ar, para quem vê de fora, uma permanente sensação de segredo. Por fim, as pessoas não conhecem a nossa história. Nós mesmos, muitas vezes, não conhecemos a nossa história. Damos pouca ou nenhuma importância para uma narrativa histórica que centralize um conceito único de identidade, e preferimos as narrativas lendárias que nos chegam pelos nossos mais velhos; narrativas estas que na maior parte das vezes variam muito entre si, algumas vezes se contradizendo completamente.

Por tudo isso, somos personagens fantásticos no imaginário dos não-ciganos, quase saídos das páginas dos livros de ficção. Por falar em ficção, muita ficção foi escrita sobre nós. E, talvez por essas ficções apresentarem uma narrativa mais consistente – e acessível – do que nós mesmos, elas acabam, na maior parte das vezes, assumindo o lugar que seria de um discurso historiográfico. E é exatamente neste ponto que o problema da definição de uma identidade romani aparece.

As pessoas têm muita curiosidade sobre nós. E isto é natural, é claro. Afinal, tudo sobre o que se constrói uma aura de mistério se torna atraente. É típico do gênero humano o fascínio, ao mesmo tempo que a repulsa pelo desconhecido. Então algum autor espiritualista, por exemplo, famoso em determinados círculos sócio religiosos por “canalizar” mensagens de espíritos de pessoas que já morreram, escreve um romance supostamente inspirado por espíritos a respeito dos ciganos… Aquilo se torna um discurso historiográfico, que será sensivelmente difícil de ser desconstruído depois, porque inevitavelmente tocará na sensibilidade religiosa de muitas pessoas.

Alguém escreve uma ópera. Uma novela. Todos os estereótipos mais famosos a nosso respeito estão lá. Lembram-se da “liberdade”? Do “misticismo”? Da “paixão”? Da moralidade duvidosa e subversiva que citamos anteriormente? Pois é, está tudo na novela, está tudo na ópera. Logo, num país pluricultural e religioso como o nosso, outras pessoas começam a “canalizar”, a “psicografar”, a “incorporar” espíritos de ciganos que já morreram; e estes “espíritos”, por sua vez, repetem o discurso gravado no inconsciente coletivo de toda a sociedade não-cigana. O resultado disso não poderia ser outro: temos uma narrativa historiográfica simulada, uma pseudo-historiografia, que será imensamente difícil de desconstruir porque, novamente, tocará na sensibilidade religiosa de muitas pessoas.

As Consequências da Distorção Identitária dos Romá

Como consequência disso tudo, nós teremos um universo bastante particular de pessoas que nunca tiveram contato com a realidade cultural romani desenvolvendo narrativas próprias sobre os ciganos. Algumas dessas pessoas venderão essas narrativas como verdadeiras revelações de segredos guardados há milênios. Outras dirão, e talvez até acreditem realmente nisso, que receberam conhecimentos de uma ordem espiritual superior e que coisas lhes foram reveladas que nem mesmo nós, nascidos ciganos e criados dentro dos costumes, conhecemos.

Parece absurdo? Mas eu já me deparei com as duas coisas.

Criei o projeto Romani Dromá por duas razões. A primeira foi que há alguns anos fui interpelado judicialmente por ter me referido a uma dessas pessoas, referidas acima, como charlatã e oportunista. A pessoa vendia – e é provável que ainda hoje venda – cursos em que prometia ensinar a verdadeira história dos ciganos e nossa religião, com o passo a passo e “iniciações” – evidentemente cobradas, e bem cobradas – necessárias para que pessoas nascidas não-ciganas se tornassem ciganas, e então pudessem se tornar legítimos sacerdotes e sacerdotisas de uma legítima religião cigana que, é claro, não existe; foi inventada por essa pessoa, que, obviamente, se dizia cigana. Ela precisava ser cigana, ou pelo menos convencer as pessoas disso para que o seu discurso funcionasse.

A segunda razão tem a ver com a primeira. Na inicial do processo, o advogado dessa pessoa me acusava para o juiz de estar cometendo “xenofobia religiosa”, o que quer que isso seja. Na época, eu havia acabado de prestar um concurso público em que havia estudado muitas matérias de direito, então respeitava muito advogados e operadores do direito em geral. Eu fiquei muito chocado quando vi que o advogado da outra parte não parecia fazer a menor ideia do que estava falando e, aparentemente, não tinha se dado nem ao trabalho de pesquisar.

Então fui eu mesmo para a internet pesquisar por verbetes básicos relativos à história e aos costumes ciganos, na expectativa de culpar a preguiça daquele advogado por aquela petição redigida de maneira tão infeliz; mas eu constatei, meus amigos, que era muito difícil, praticamente impossível, encontrar disponível nas redes qualquer informação consistente sobre os rhomá, sobre os ciganos.

Simplesmente não havia informação. O que havia era desinformação. MUITA desinformação. Em resumo, um apanhado daquela pseudo-historiografia e verdadeiros tratados pseudo-antropológicos, que, em geral, eram reproduzidos pela maioria dos sites e blogs sem que a fonte original tivesse sido citada; ou seja, a fonte original, àquela altura, era impossível de ser determinada.

Foi só quando me deparei com este quadro que percebi a imensa carência, o imenso abismo de fontes de pesquisa confiáveis. Alguém que chegasse à internet hoje, por exemplo, querendo aprender mais sobre o povo assim chamado “cigano”, não conseguiria aprender quase nada de certo, salvo uma ou outra coisa, geralmente misturada com muita besteira.

Creio que tenha sido neste momento que tomei a decisão de criar o Romani Dromá. Lembro como se fosse ontem, eu revi toda a minha trajetória até aquele momento. Havia gastado tanta energia lutando contra indivíduos cujo caráter não cabia a mim julgar e, se estivesse certo, estavam além de qualquer salvação; havia gastado tanto tempo apontando o que estava errado, mas muito pouco falando sobre o que seria o certo.

Finalmente concluí que nossos ancestrais – e longe de mim querer julgá-los – tinham durante séculos protegido o nosso povo se fechando, mas que talvez os tempos tivessem mudado, e agora o caminho da sobrevivência fosse se abrir, dar-se a conhecer.

Conclusão

É muito difícil para autoridades – e aqui há algumas – de um determinado povo saber a maneira certa de tratar um povo que não conhecem ou sequer entendem como um povo no verdadeiro sentido da palavra. Na verdade, eu receio que a maior parte das pessoas pensem nos ciganos ou como personagens fabulosos de um tempo que já se foi, ou como indivíduos miseráveis com um estilo de vida excêntrico.

O cigano não seria, no entendimento majoritário da sociedade não-cigana, um indivíduo próprio de um contexto social diferente procurando uma maneira de coexistir, mais ou menos como o são os indígenas, das mais diversas etnias indígenas, já que sabemos que, como a palavra cigano, a palavra índio é um exônimo; uma espécie de eufemismo que o povo dominante criou para se referir a uma série de povos diferentes, quando eles têm suas próprias designações, seus próprios nomes para si mesmos.

Assim, o cigano talvez seja alguém que faz parte de um grupo social cuja ideologia o leva a adotar um modo de vida diferente e extravagante. Mais ou menos como os hippies e outras tribos urbanas que surgiram e surgem a todo instante. Pode ser também que cigano seja simplesmente alguém que tem certa filosofia de vida… Vocês já devem ter ouvido ou lido o clichê em algum lugar: “o céu é o meu teto, e blá-blá-blá”. Pode ser ainda que ser cigano, hoje em dia, signifique pertencer a alguma seita religiosa ou dissidência afro-espiritualista. Daí eu pergunto pra vocês: porque um grupo religioso, ou um grupo social que só não está melhor inserido na sociedade porque não quer, já que compreende bem como ela funciona, haveria de querer ou merecer prerrogativas especiais ou um tratamento diferenciado por parte do Estado?

O que dificilmente se passa pela cabeça do não-cigano é que ser cigano é ser, na verdade, membro de uma comunidade tradicional, de um povo que tem história, cultura e alteridade. Que possui uma compreensão diferente, pela sua própria bagagem e vivência, a respeito de muitas coisas – e aqui me permitam novamente traçar uma comparação com os indígenas – e que, justamente por causa dessas diferenças tem graves problemas de adaptação social que acarretam inúmeras fragilidades.

Vocês conseguem perceber o quanto o problema da identidade romani é nevrálgico para a questão cigana, pelo menos aqui no Brasil?

O cigano que vive em condições mais extremas muitas vezes não reconhece a si mesmo como membro de uma determinada nacionalidade, como cidadão de um país. Prova disso é que se refere a si como cigano, e aos não-ciganos como “brasileiros”. Mas eles são cidadãos brasileiros também, cidadãos esquecidos, que não possuem sequer consciência dos próprios direitos, muito menos do sistema legal não-cigano e do que os não-ciganos consideram certo ou errado.

A exclusão prolongada provoca esse tipo de abismo, ainda que a distância geográfica não seja tão grande. Daí que nós, que estamos melhor inseridos e melhor colocados na sociedade não-cigana; nós, que de alguma maneira ganhamos voz e galgamos alguma posição nesta sociedade, temos de fazer essa ponte. Cabe a nós, pessoas como nós aqui nesta mesa, intermediar essa conversa, para fazer com que os dois lados se entendam e trabalhar por essa inclusão, que de sua parte não pode existir sem respeito mútuo.

Muito obrigado.

3 comentários em “PALESTRA SOBRE IDENTIDADE RHOMÁ – I SEMINÁRIO DE CULTURA E IDENTIDADE ROMÁ

  1. Olá, Mikka Capela!
    Gostei muito do seu texto. Queria ter ido ao encontro, mas tinha outro compromisso de trabalho no Rio. De todo modo, vou ficar atenta aos próximos.
    Quando puder, dê uma olhada na minha tese de doutorado. Foi o resultado de uma pesquisa de campo em dois pousos ciganos, em Rio das Ostras, durante dois anos e o Marcos Rodrigues, parente de uma família acampada por lá, foi quem me ajudou a abrir
    esse trabalho. (http://pos.eicos.psicologia.ufrj.br/wp-content/uploads/CLÁUDIA-VALÉRIA-FONSECA-DA-COSTA-SANTAMARINA.pdf).
    Gostaria muito de poder trocar ideias sobre os temas tratados na tese e sobre alguns avanços em relação ao debate sobre racismo institucional vividos na escola e saúde por crianças e mulheres. Por não haver quase ninguém que se interesse pelo assunto, em âmbito acadêmico, aqui no Brasil, tenho desenvolvido trocas acadêmicas com pesquisadores de Portugal e Espanha especialmente. Mas, seria muito rico fazer isso aqui também. Em outras oportunidades, se eu puder contribuir, conte comigo. Vou gostar muito. Um forte abraço e parabéns pela iniciativa!

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