Entrevista com o Cigano

O querido João Bosco Araújo, lá de Sousa, que já é um ativista da causa cigana há muitos anos, está fazendo seu TCC da graduação em Serviço Social sobre os ciganos e as políticas públicas no Brasil. Com o objetivo de colher dados para o projeto e aprender um pouco mais sobre a maneira como pensam romá de diferentes procedências e cantos do Brasil, ele resolveu entrevistar alguns de nós. Este que vos escreve, como não poderia deixar de ser, foi um dos ilustres escolhidos. (risos)

Brincadeiras a parte, a iniciativa do Bosquinho está de parabéns! A entrevista ficou tão legal que resolvi – com a autorização dele, é claro – postar aqui no blog. O resultado vocês podem conferir aí embaixo! 😉

Você é cigano?

Sim.

Pertence a qual grupo étnico (Rom, Sinti ou Calon)?

Meu pai é calon, da Paraíba, minha mãe é sinti, descendente de imigrantes italianos. Pela tradição, eu seria calon. Mas como fui criado na família de minha mãe e tive pouco contato com a família de meu pai, me considero sinti.

A qual subgrupo étnico pertence (kalderash, lovari, matchuayia, carrapicheiro, etc.)?

Brasiliako, descendente de italiaias.

Ainda pratica o nomadismo ou o semi-nomadismo?

Não.

Sua família ou amigos ainda praticam o nomadismo ou o semi-nomadismo?

Não.

Conhece ou tem contatos com grupos nômades ou semi-nômades?

Conheço alguns grupos nômades e algumas famílias que praticam o semi-nomadismo, mas não tenho muito contato com eles.

Possui documentos civis (certidão de nascimento, identidade, CPF, título de eleitor)? Quais?

Sim. Tenho todos os documentos. Certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF, título de eleitor…

Costuma votar nas eleições periódicas?

Sim, em todas elas.

Prestou alistamento militar?

Sim, também tenho o certificado de reservista.

Você se considera um cidadão brasileiro?

Com certeza.

Frequentou escola regular? Se sim, cursou até que série?

Sim, frequentei. Cursei todo o ensino fundamental e médio. Atualmente estou cursando História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Acha a escola importante para os ciganos?

Com certeza. Sem educação o nosso povo jamais conseguirá conquistar o seu lugar de direito no mundo.

Já precisou ou fez uso de hospitais ou médicos da saúde pública? Se sim, como foi o atendimento?

Sim, algumas vezes. Como tenho todos os documentos civis, o atendimento foi normal, apenas ruim como a saúde pública no Brasil é.

Já sofreu preconceito ou discriminação por ser cigano?

Minha família, há muito tempo, optou por viver na condição de cripto-ciganos, então não temos o hábito de falar de nossas origens, o que sem dúvida evita muito preconceito. Mesmo assim, já sofri preconceito por parte de pessoas que, desinformadas, acham que ser cigano é pertencer a alguma religião.

Para você, o que é ser cigano, como se constrói essa identidade?

Ser cigano é ter uma descendência que remete a um povo de origem oriental que por alguma razão misteriosa ganhou o mundo, tornando-se nômade, em algum momento do século XI. Mais que isso, ser cigano é ser o herdeiro das tradições desse povo, tradições essas pelas quais devemos zelar e que somos responsáveis por perpetuar, para que nosso povo e nossa linhagem não desapareçam da face da terra.

Como você vê a situação dos ciganos hoje no Brasil?

Em relação à Europa, onde as perseguições vêm crescido de maneira assustadora, nossa situação aqui é muito boa. Também é muito mais fácil para um cigano se integrar à sociedade não-cigana morando num país miscigenado como o Brasil. No entanto, a invisibilidade do povo cigano, de maneira geral, ainda é um fato. Muitos não sabem que somos um povo, com cultura e história própria, nos confundem com religiões e uma grande parte de nós ainda vive às margens da sociedade, no analfabetismo, em situação precária e privada dos direitos civis e sociais mais básicos. Ainda há muito pelo que lutar.

Como você acha que deveriam ser as políticas públicas voltadas para o povo cigano hoje no Brasil?

A primeira coisa é dar o reconhecimento aos ciganos de minoria étnica. Somos uma minoria étnica presente nessas terras desde o período colonial e tivemos participação ativa na construção da cultura e da identidade brasileira, como muitos estudos recentes comprovam. Merecemos ser reconhecidos e valorizados enquanto ciganos dentro da sociedade. Uma vez que se reconheça isso, o próximo passo seria tratar das necessidades especiais dos ciganos em função de seu modo de vida. Ainda há muitos, como eu disse anteriormente, vivendo à margem da sociedade, privados de direitos básicos, sem acesso á saúde e à educação, como verdadeiros párias em pleno século XXI.

Do seu ponto de vista, quais as maiores necessidades dos ciganos hoje, no Brasil?

Eu acho que a maior necessidade dos ciganos, hoje, no Brasil é reconhecimento. Precisamos ser reconhecidos como pessoas, membros de uma comunidade tradicional, precisamos que vejam que estamos aqui, porque a maior parte de nós simplesmente não é vista, é vista apenas em períodos eleitorais ou é pensada como entidade de algum culto religioso. Somos pessoas, temos necessidades, o Brasil precisa descobrir essa realidade.

Em segundo lugar, vem a questão da educação, que para mim é muito séria. Tenho a impressão de que a maior parte dos ciganos brasileiros ainda não percebeu a importância que a educação tem na construção do nosso futuro. É preciso pensar na questão da educação, para modificar verdadeiramente nossa realidade no longo prazo, e vejo isso como um desafio tanto para as políticas públicas quanto para os próprios ciganos.

Como é, do seu ponto de vista, a relação dos ciganos com os não-ciganos?

Bem, isso depende. Os ciganos não são uma comunidade única e homogênea. Há diversas maneiras de se construir essa relação inter-sociedades, mas, de maneira geral, os ciganos têm relações comerciais com os não-ciganos. O que quero dizer com isso? Sabe a diplomacia que há entre os países, aquela coisa de ministro do comércio exterior? Então, é quase a mesma coisa. A maior parte das famílias estabelece laços comerciais/profissionais com os não-ciganos para garantir o sustento. No entanto, construir relações de amizade muito profundas, embora possa acontecer, não é algo comum ou mesmo procurado.

Com as novas gerações, todavia, essa realidade vem se modificando, o que é visto com preocupação e reservas pelos mais velhos.

Você acha que uma integração maior entre as duas sociedades, cigana e não-cigana, poderia ser proveitosa para os ciganos?

Com certeza. O isolamento, historicamente, foi uma estratégia de sobrevivência, num mundo hostil, em que você estava seguro se seus inimigos soubessem o mínimo possível a seu respeito – e quase todos podiam ser vistos como inimigos em potencial. Hoje a realidade se inverteu. Há muito tempo eu percebi que a nova ordem do mundo é informação. Quem não é visto não é lembrado e da forma como as coisas estão instituídas, ninguém mais consegue sobreviver isolado, ninguém está seguro sozinho. Então, nessa nova delineação de necessidades, nós precisamos fazer as pessoas se interessarem por nós, precisamos fazê-las saber o máximo possível ao nosso respeito, preservando, é claro, a nossa individualidade. O comportamento dos judeus após a Segunda Guerra Mundial me ensinou isso.

É sabido que os ciganos, em geral, são uma das comunidades mais tradicionais e fechadas que existem. Você acha que existe a necessidade de mudar internamente alguns aspectos culturais, no sentido de tornar mais fácil a integração com o mundo não-cigano?

Sim, acho que esse é o ponto. É preciso, mais do que nunca, fazer um trabalho com os próprios ciganos, dentro das comunidades, porque isso que eu disse aí em cima, infelizmente, está muito longe de ser um pensamento comum ou aceito por todos. A maior parte ainda tem um desprezo, uma espécie de ressentimento pelas coisas do mundo não-cigano. A educação não-cigana, quer dizer, as escolas não são valorizadas. Os próprios ciganos, muitas vezes, se colocam à margem, como párias. É preciso mudar essa situação.

Também existe a questão da identidade. A identidade, para um povo nômade, espalhado pelo mundo todo, é uma questão de difícil consenso, e para muitos líderes ciganos, a mudança, mesmo que de apenas aspectos culturais, implica na dissolução, no esvaziamento da identidade cigana. Repensar essa questão é um grande desafio.

Historicamente, sabemos que muito do que hoje se considera “cultura cigana” pelos próprios ciganos é, na verdade, influência ou empréstimo cultural não-cigano, tomado de suas viagens pelo mundo. A cultura não-cigana, que, em geral, não precisa se preocupar com a definição de uma identidade étnica, muda muito rapidamente, ao passo que os ciganos, até por conta do valor que tem a oralidade para nós, tendem a se apegar muito intensamente aos valores antigos.

Assim, ainda é comum a exclusão de homossexuais, a mulher relegada a um papel social de submissão, homens que estudam apenas até aprenderem as operações matemáticas básicas por conta de suas necessidades comerciais, etc.

Pessoalmente, acho que a cultura cigana é muito mais do que isso e que nossa identidade não se define dessa forma. Outra vez recorro ao exemplo dos judeus, como um povo também de origem nômade, que soube se integrar à sociedade não-judaica sem, contudo, perder a identidade. Por que não poderíamos, nós, fazer a mesma coisa?

A partir das perspectivas de hoje, como você vê o futuro dos ciganos no Brasil?

Eu não diria o futuro, propriamente, mas vejo a tentativa de construir um futuro como uma luta contra o tempo, quiçá contra o destino. Os ciganos foram, desde sempre, mestres na arte de sobreviver. Passaram por perseguições, escravidão e genocídio. No curso da História, nossos antepassados souberam sobreviver melhor que qualquer outro povo. Mas hoje, não sei, as últimas gerações parecem ter perdido essa capacidade. O mundo mudou, eles perceberam, mas não estão sabendo se adaptar, coisa que sempre fizeram muito bem, e isso é ruim no longo prazo, ou seja, para o futuro.

Nunca fui niilista, pessimista ou coisa que o valha, mas, por tudo o que já disse aí em cima, se mudanças significativas não começarem a acontecer – e quando falo de mudanças não me refiro apenas às políticas públicas do Estado, mas às próprias relações dos ciganos com os não-ciganos e, principalmente, uns com os outros – rezo para que tenhamos um futuro. Pode parecer paradoxal que a sobrevivência de nossa identidade esteja mais ligada à maneira como interagimos e nos integramos com outras identidades do que à tentativa obstinada de manter essa identidade pura, protegida o máximo possível do contato com o outro, com a alteridade. A História e a Antropologia, no entanto, já provaram que é exatamente assim que as coisas são.

Obrigado. 

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